Olho Selvagem
curadoria de Mariana Destro
15/12/2018 – 8/3/2019

Apresentamos jovens mulheres construindo narrativas, reivindicando pontos de vista não hegemônicos. O olho selvagem expurga a dominação tradicional do olhar masculino e reorienta a significância do não masculino: mulheres olhando mulheres.


Consolo・Manoela Morgado, Mariana Destro
15/12/2018 – 4/1/2019

Malena Stefano
4/1/2019


Nenhum homem no mundo・Agrippina R. Manhattan, Alexandra Martins, Alla Soüb, Ana Matheus Abbade, Bia Leite, Danna Lua Irigaray, Laura Fraiz-Grijalba, Luara Learth, Maria Eugênia Matricardi, Pietra Sousa, Romulo Barros
curadoria de Yná Kabe Rodríguez
12/1/2019 – 3/2/2019

“No man in the world
No man in the world

The measure of any society is how it treats it's women and girls

No man is big enough for my arms

No man in the world
No man in the world
No man is big enough for my arms”


(Fragmento da música No man is big enough for my arms, lançada em 2017 no álbum Ash, da dupla francesa Ibeyi)


Quando tinha que responder questionários ou entrevistas sobre como é ser trans/travesti no Brasil, colocava-me em um dilema maior que as perguntas superficiais que normalmente entram em pauta quando a pesquisa é conduzida por uma pessoa cis; me pergunto “como posso resumir em poucas ou uma palavra” a minha experiência enquanto travesti, talvez em uma vontade de que aquela entrevista (anteriormente combinada) ou uma pergunta numa conversa casual. Por mais que ainda me questiono se é possível, enquanto travesti, resumir minhas vivências em um conciso adjetivo, tenho focado minha sede de resposta para um lado mais existencial da questão: “por quê?”. Assim como me propor pensar como uma tentativa de dissolução ou interpretação de uma experiência pode passar por processos de “normatização”, ainda mais quando se há uma falta significativa de referências (a)diversas, me interessei pela inquestionável necessidade de FALAR. Quando me questiono sobre tantos dados, experiências, notícias, acontecimentos dentro do que é ser “mulher” no Brasil, consecutivamente no Mundo, penso nas diversas vozes que ecoam, e, assim, no eco existindo.

Quando Linn da Quebrada lançou Pajubá em 2017, foi impossível não gritar do fundo para fora. Com muita inteligência e performatividade, Linn e Jup do Bairro cantam experiências e reflexões sobre tais momentos (sendo eles descritos dentro de uma ótica micro ou macropolítica) com uma energia combativa. Algo que chamamos, na internet, de “hino”. O título do álbum não poderia sinalizar melhor o vocabulário de experiências e imaginários (reações, sentimentos, desejos) de grupos marginalizados e resistentes no país. Temos mais uma referência para carregar como munição, também como oralidade e corporeidade de pretas, travas, byxas, sapas, todes e etc.

Também em 2017 a dupla de irmãs Ibeyi lançou o álbum Ash, no qual uma música me chamou a atenção na primeira ouvida. “Nenhum homem é grande o suficiente para os meus braços” é composta por fragmentos do discurso de Michelle Obama em New Hampshire em outubro de 2016, no qual ela aponta para o comportamento de Donald Trump e seu tratamento com as mulheres. Para além das diversas imagens que a frase “nenhum homem é grande o suficiente para os meus braços”, a constante repetição de “nenhum homem no mundo” me instigaram a imaginar exatamente o que a frase diz: nenhum homem no mundo. As constantes tocadas fizeram não só que Pajubá e Ash se tornassem os álbuns mais escutados de 2017 e 2018, mas também que algumas questões percorressem um grande espaço de tempo até o momento do convite para integrar o ciclo Olho Selvagem organizado por Mariana Destro no deCurators. deCu pres intimes.

Quais e como seriam os processos de IMAGINAR “nenhum homem no mundo”, na ordem da frase onde se evoca uma evacuação ou proibição ao invés de pensar “um mundo de nenhum homem”? Sendo a primeira um processo de exclusão e a segunda de criação fantasiosa onde imaginamos um mundo sem a “necessidade de”, assim, sem um conceito de falta. A enorme diferença e minha maior vontade em perseguir essa questão por mais de um ano é o momento em que pensar sobre “nenhum homem no mundo” promove um pensamento para a ação. Não me aproximo aqui apenas numa ideia de manifestação, mas há processos de criação de mundos. Precisava, então, entender para além de uma catalogação de pensamentos sobre novos mundos, e encontrar no fazer, nas coisas feitas, as possibilidades de agir. A tátil revolução de se fazer o que se quer e o decepcionante embate com as questões de quais corpos podem fazer o quê.

É importante para mim pensar como temos que resolver problemas diariamente, e para além da imaginação, para além dos problemas de imagem (apontando aqui o embate que poder criar novas redes de apoio e troca pela internet esbarram com os problemas que as redes sociais exaltam). Precisei retornar para uma ideia de artesania ou artesanal, uma ideia muito simbólica aos meus aglomerados de mulheridades. Foi necessário confundir, separar e, em algum momento, abandonar os questionamentos sobre feminilidade/feminismo. Foi necessário aprender a fazer olhando pela primeira vez trabalhos e propostas com os olhos de quem urge soluções. Assim, sendo testemunha de ações que movem as possibilidades de existir e criar. De sucumbir, derivar, debater, desejar e expor.

Sem a necessidade de vincular tantas questões a uma ideia de grupo ou movimento, mesmo que seja necessário falar cada vez mais sobre feminismos e mulheridades, foram registros e talvez documentos de que já existem outras formas de existir. Existem formas de combater a transfobia, existem diversas maneiras de se portar de forma não-racista, existem ações efetivas para combater o feminicídio. Previamente a qualquer proposta para esta exposição, é necessário ver que ações e posturas estão sendo tomadas tanto como manifestações quanto como indicativos de que já existimos dentro de nossas próprias construções, talvez sem conseguirmos nos desvincular totalmente das normas que “indicam/aprisionam” a(s) ideia(s) de quem somos. Podemos pensar pela lógica que busca solucionar e inventar outras possibilidades para acabar com a violência patriarcal. Assim como podemos e devemos continuar também levantando questões (FALAR) que indiquem o caminho do pensamento para a ação, para o clássico “mão na massa”. Em momentos de violências extremas, que cada vez mais vivenciamos no Brasil, podemos começar agir-pensando.
Yná Kabe Rodríguez



Pietra Sousa
12/1/2019


Composta・Débora Passos
26/1/2019 – 27/1/2019

composta
adjetivo

1. que se formou; constituída.
2. Que age ou se comporta com compostura; contida, disciplinada.
3. Que se combinou ou ajustou; ajeitada, conciliada.

(Composta: bordado com cabelos de mulheres)

Etapas:

1. Coletar no Google o significado da palavra composto;
2. Mudar a desinência de gênero;
3. Pensar no quanto há, na formação das mulheres, de:

Compostura – Contenção – Disciplina – Ajuste – Conciliação – Relativização – Aglutinação – Justaposição – Oração – Conexão – Constituição – União – Igualdade – Órgãos – Vegetais – Flores – Lâminas – Limbos – Subdivisão – Resultado – Partição – Diferença

4. Convidar as mulheres a doarem alguns fios de cabelo para o bordado;
5. No tecido e com os demais utensílios, borda-se. No processo, pensar em todo o item 3;
6. Aguardar outras mulheres fornerecem mais fios;
7. Reiniciar o processo.

Débora Passos


VINTECUATRO・Alla Soüb, Félix Beá Perini, Carli Ayô, Yná Kabe Rodríguez, Laura Fraiz-Grijalba, Maria Léo Araruna, Mariana Destro, Martha Suzana, Nebulosa Stoppa
curadoria de Yná Kabe Rodríguez
3/2/2019

24 horas de performances, ações e intervenções online e ao vivo, transmitidas pelo Instagram e pelo CAM4.





Frank・Bia Leite
curadoria de Mariana Destro
16/2/2019 – 8/3/2019

Era 2005. Para quem hoje está com vinte e tantos anos, era o momento de primeiros: primeiros afetos, primeiras vontades, primeiras experiências. Bia Leite guarda o diário que escreveu aos 15. Nas páginas sem espaços vazios do caderno azul, o relato sobre a primeira vez que foi para a boate Noise 3D, inferninho indie no centro de Fortaleza.

“Então eu nem contei que EU FUI PRO NOISE! Menina, foi tão bom. Fiquei tão feliz de minha mãe ter deixado. Deixou com a cara do tamanho do mundo, mas deixou. Só essa vez nas férias. O Luciano B. tava lá, lindo, as always. Pense que dancei MUITO, me acabei lá. Finalmente um lugar consegue fazer isso comigo.”

Há no trabalho de Bia Leite o desejo de elaborar as memórias da adolescência. Para isso, a artista apresenta em imagens questões pertinentes à violência e ao amor. Torna-se inevitável se deixar envolver pela instalação construída em Frank. Além da tormenta, o êxtase. Na Noise 3D, a música e a bebida embalavam uma festiva resistência queer1 – sendo a música, aliás, aqui digna de nota. Em cada dia documentado no diário de Bia, há a música que ela estava ouvindo no momento. Durante a pesquisa poética e pictórica do projeto, a artista fez uma playlist com músicas que a fazem lembrar das noites na boate. Playlist, pintura, não há um limite claro.

As memórias de adolescência que Bia Leite compartilha em Frank evocam nossas próprias memórias não compartilhadas, subjetivas. Mesmo durante a exposição surge uma memória compartilhada por nós que ali estamos: a música que ouvimos é a playlist de Bia, o bar está dentro da galeria, posicionado ao lado das telas, e as próprias telas, por sua vez, estão dispostas na parede conforme os esboços no sketchbook da artista, sugerindo um ambiente instalativo do qual as telas tanto fazem parte quanto são o coração.

Bia Leite ousa suscitar lembranças de uma época de incertezas e amadurecimento2 e o faz porque ela mesma permanece em busca de algo. Talvez seja uma busca sentimental, e a nós, certamente, só cabe sentir. Afinal, ao som de Frank3, podemos sentir que por esta noite tudo é nosso.

Mariana Destro






1    Queer, além de se referir a um termo derrogatório usado historicamente como ferramenta de opressão, mas reivindicado com orgulho por pessoas LGBTQ+, pode se referir a algo excêntrico, diferente, estranho ou não mainstream.

2    Em estudos de narrativa, uma história de amadurecimento (bildungsroman) pertence a um gênero literário focado no crescimento da personagem, da juventude à idade adulta, em que a mudança de caráter é importante. Protagonistas de histórias de amadurecimento são em maioria homens.

3    Frank é o primeiro álbum de Amy Winehouse, lançado em 2003 pela Island Records.