Eksperimentalis Visage








Sobre o programa:

Visage

“Visage”, em francês, significa rosto ou fisionomia, mas para Mena, curadora do Eksperimentalis Visage, se trata de identidade e da multiplicidade de gêneros e rótulos em toda a complexidade humana. Mena afirma que queria trazer essa reflexão sobre todos os rostos humanos nos quais podemos nos reconhecer. Sobre a organicidade de nossas próprias escolhas e múltiplas mudanças, sejam elas conscientes ou inconscientes. Então, ela descobriu que em algumas regiões do Brasil “visagem” significa fantasma ou alma penada, e é daí que vem a atmosfera fantasmagórica do programa. A falta de distinção entre o que é rastreável e o que não é, a dissolução de identidades, os lados mais ricos e intrigantes da humanidade.

Em termos musicais, Visage também é uma referência à peça de Luciano Berio, que carrega uma camada conceitual profunda e sofisticada. A peça Visage (1961) é uma obra seminal da música vocal concreta e experimental, com elementos eletrônicos, onde a linguagem, o som e a identidade se dissolvem.

“O projeto veio pra mim como um questionamento pessoal, como tive contato com a música erudita desde criança fui aperfeiçoando meu ouvido com muitas referências vindas de vários países porém criadas em conservatórios e palácios da alta sociedade. Porém, ao mesmo tempo, foi nesse ambiente e com o avanço da tecnologia pós-guerra que os artistas começaram a experimentar com outros métodos de criação sonora, dando destaque a fita magnética. Explorando gravaçôes reversas e outras manipulações (emenda, looping, alteração de velocidade/tom) com gravadores de fita que influenciaram a criação de vários gêneros musicais entre eles a música concreta, música eletroacústica, música ambiente e até o dub.

Sendo a experimentação pura a base da música contemporânea e o porquê da música eletrônica ser o que ela é hoje, criei esse projeto com o intuito de fazer as pessoas refletirem sobre o que tocam e explorarem diferentes facetas de som. Trazendo a complexidade da identidade humana a um àmbito de criação sonora e artística, unido também ao questionamento do que é ser um músico de pista e palco: daonde vem nossas referências? como o que estamos tocando pra pessoas se relaciona com todos os arquétipos que construimos e acolhemos dentro de nós mesmos. como as construções dos gêneros musicais nos condiciona a uma natural infidelidade naquilo de realmente somos, as vezes até limitando nossa pesquisa e experimentação com novas formas de se relacionar com o som.”

Sobre a curadora:

Mena

Nome artístico de Maria Eduarda Nunes como musicista eletrônica e artista conceitual. Desde pequena, ela brinca com sons e medita sobre a relação entre som e ruído. Durante seus anos na academia e através de sua imersão na análise e audição de composições musicais clássicas dos séculos XX e XXI, com a experimentação desses elementos, surgiu seu fascínio pela música eletroacústica e eletrônica. As seleções de Mena são uma valiosa caixinha de surpresas que revelam elegância e elementos obscuros, que remetem à sua dualidade como corpo e alma femininos. Quase solene, ela sempre contém traços sonoros visionários de todo o mundo.


Eksperimentalis Visage é um programa de rádio de música eletrônica experimental, desenhado por Mena para ser um espaço livre de experimentação com diferentes texturas, ritmos, gêneros e ideais na construção de cada mixtape e na intenção pessoal de cada convidado, com sua própria leitura e experiência aplicada em termos musicais.

Com referência à obra do Luciano Berio, o nome carrega uma camada conceitual profunda e sofisticada. A peça Visage (1961) é uma obra seminal da música concreta e experimental vocal, com a voz de Cathy Berberian, o que combina perfeitamente com um projeto voltado para: (1) música experimental/rádio-arte; (2) performance sonora livre; (3) voz e sons naturais ou manipulados como matéria-prima; (4) desconstrução da linguagem/imagem convencional e nítida; e (5) exploração de diferentes identidades através do som. Temas presentes tanto em Berio quanto em outros artistas da mesma linhagem (como Mauricio Kagel), trazendo elementos quase lúdicos, que brincam com o som, a voz e os gêneros. Como se brincassem com o conceito do que deve ser dito, tocado e nisso apresentam-se várias faces de um mesmo cenário, que no caso, é o da música experimental.

O conceito de Visage não se dá apenas como “rosto”, mas sim um rosto sonoro — uma máscara musical, um gesto de expressão abstrata. Carrega o peso e a elegância do repertório contemporâneo europeu, mas com uma abertura para interpretações livres. Evoca o surrealismo, expressionismo, desconstrução, teatralidade sonora e elementos do absurdo. Fala sobre uma identidade existencial, sonora, individual e coletiva.