Palestra Performance

Com curadoria de Aslan Cabral, Palestra Performance é a reunião de agentes do pensamento contemporâneo em discussão sobre a performance como método vaporizado de expansão e mistura do formato palestra. Durante encontros e apresentações online do grupo, colaboraremos para a discussão relacionada à chamada lecture-performance, com intuito de expandir seus usos como vertente artística discursiva.

Além do próprio Aslan, participam Biarritzzz, Novíssimo Edgar, Hilan Bensusan, Jacque Jordão, Luciana Ramin e Yná Kabe Rodríguez. As reuniões acontecem pelo Zoom, sempre conduzidas pela palestra de cada ume des artistas participantes.

O ciclo teve início em 17 de agosto, com Aslan Cabral em “Alerta Spoiler”:

Alerta Spoiler, 2020
Netochka Nezvanova
Palestra performance, 33′

Discussões sobre redes sociais podem ativar sensações de esperança e medo. “Alerta Spoiler” ativa essas variações na tentativa de impulsionar os vapores e expansões críticas em usuários comuns de redes sociais. Essa ação foi criada dentro do ciclo de atividades PP: grupo de práticas, estudos e diálogos voltados para a expansão do campo das palestras, talks integrados às artes performativas pós-contemporâneas.

No dia 31 de agosto, Hilan Bensusan apresentou “Não: as recusas, as contestações e as profundidades tântricas da sinceridade”:

Não: As recusas, as contestações e as profundidades tântricas da sinceridade, 2020
Hilan Bensusan
Palestra performance, 41′

A negatividade é uma intensidade pronta
Peter Handke

A negatividade vai dando forma às coisas: isso não, aquilo não, aquilo outro também não. Pelo menos em uma maneira de ver a existência como uma escultura em pedra-sabão. E quantas vezes o não fica engasgado nos músculos da garganta, na glândula pineal — que sempre me parece uma válvula — e não sai. É preciso, dizem tantos, aprender a dizer não: tomar os instrumentos na mão e esculpir o mundo. Outros, Deleuze, por exemplo, insinua que a soberania do animal está na indiferença, em virar a cabeça, como no amor fati de Nietzsche — nem brigar, nem se recusar, nem contestar, apenas virar a cabeça para o outro lado. Deleuze diria: já a maioria das pessoas não têm mundo, vivem no mundo de todo mundo. Não esculpem o mundo como um carrapato que diz não pra quase tudo, até que passa o mamífero. Mas a escultura afinal não fica a cara do que a gente recusou? A negação de alguém não é sua cara? Dizer “eu não te desejo” não é formar um desejo a partir do que não desejamos? Aquilo que não é eu — que se recusa a ser eu mesmo — não é também a cara de mim mesmo? Se somos feitas de ausências, somos até o fundo desafirmadas. Mas dizer sim também não tem uma musculatura de negação? 

Esta palestra performance vai querer conjurar as vísceras no momento de um não, de um não nem dito, de um não escondido. Uma performance da negatividade, concretíssima, e armada tanto de teatro da crueldade quanto da crueldade do teatro.

Em 14 de setembro, Novíssimo Edgar apresentou a performance “Armadura para os dias de isolamento”:

Armadura para os dias de isolamento, 2020
Novíssimo Edgar
Palestra performance, 55′

Na performance “Armadura para os dias de isolamento”, o artista Novíssimo Edgar apresenta o seu íntimo e uma maneira de se proteger espiritualmente através das indumentárias ancestrais. Utilizando de tecidos e roupas de doações que carregam anos de histórias das pessoas que usaram, de peito e mente aberta, Edgar vai costurando essas histórias umas nas outras, ressignificando roupas que iam ser abandonadas, transformando elas em sua armadura. Começando dos pés e subindo para cabeça essas roupas vão proteger do seu corpo enquanto ele vai recitando poesias criando um monólogo poético, é um personagem que surge dessa mixagem de roupas usadas e esquecidas, retalhos de tecidos abandonados e uma mensagem poética caprichada com esperança para os dias de hoje.

Em 19 de outubro, Jacque Jordão apresentou a performance “Tempo Nu”:

Tempo Nu, 2020
Jacque Jordão
Palestra performance, 9′

Sussurro das velocidades rápidas e barulhentas com a lentidão e o silêncio dos corpos e suas tecnologias. As transformações do tempo dentro da sociedade destrutiva enquanto o planeta respira do seu pulmão os corpos gritam, parados com suas mentes ativas.

Pensantes disciplinados, envelhecidos e imobilizados criticam o espaço de construção e liberdade através do pertencimento de sua identidade. Donas do tempo, as mãos pré-históricas conduzem a comunicação, não mais com as pedras e sim com as telas que nos afirmam o quão confortável é não sair do lugar, na palma da mão aonde o mundo moderno se faz possível.

O tempo está exposto nas repetições e nos desejos do toque.

Em 9 de novembro biarritzzz e Henrique Falcão apresentaram “O REAL E O ESPIRAL”:

O REAL E O ESPIRAL, 2020
biarritzzz e Henrique Falcão
Palestra performance, 55′

Nesta performance biarritzzz e Henrique Falcão apresentam uma experimentação ao vivo de palavra falada e composição de beats inédita, desconstruindo e mixando o recém-lançado álbum “EU NÃO SOU AFROFUTURISTA” (2020), bem como a videoarte “Teatro Hacker Sem Cortes”, de 2017. Temas da política e da filosofia são abordados através das letras revisitadas dentro do improviso e do flerte com o imprevisível.

No dia 16 de novembro foi a vez de Luciana Ramin, com “O quadro da dor na moldura do inferno”:

O quadro da dor na moldura do inferno, 2020
Luciana Ramin
Palestra performance, 12′

“O quadro da dor na moldura do inferno”, uma palestra performance trágico-cômica sobre o ser e o estar, sem se sentir parte. Um exercício sobre o isolamento e seus detritos.