Cascamadas・Igu Krieger
curadoria de Shesna Lyra
projeto em parceria com Index
9/4/2021 – 30/4/2021

Utilizando cascas de árvore, linhas, tecidos e a cultura brasileira como o próprio meio de produção artística, Igu Krieger transforma o que ele chama de Cascamadas em canvas. Um cruzamento entre pintura, matéria têxtil e instalação, essa estrutura surgiu de suas investigações contínuas com materiais naturais e suas associações culturais eminentes.

As cascas de árvores utilizadas para a construção dessa estrutura foram coletadas pelo artista em uma de suas caminhadas pelo Cerrado. Igu mantém uma prática perambulante cotidiana que é utilizada como parte de suas pesquisas formais, e conceituais, especialmente nos trabalhos em que explora a venda de produtos camelô na cidade de Brasília (DF). Semelhante ao seu trabalho com os camelôs, para criar Cascamadas, o artista estuda as propriedades espaciais do meio onde ele se insere. Como camelô, investiga a estética que envolve seu trabalho e de outros camelôs através da disposição espacial e da escolha de materiais como roupas, tecidos e bugigangas. Já para criar “Cascamadas“, o artista analisa as propriedades inerentes da matéria enquanto desenvolve sua prática nômade, explorando o encontro de afetos que atravessam o corpo no caminho através do Cerrado brasileiro.

As cascas encontradas, matéria prima para a construção desta estrutura, pertencem à árvore designada como Melaleuca, uma árvore nativa da Austrália que se adaptou bem às condições do ecossistema do centro-oeste.

“Quando olhei pra mata vi uma árvore grande despelando cascas no chão, entre seus troncos havia uma lata de tinta Suvinil incorporada em sua estrutura. A árvore cresceu e vestiu em seu corpo cores heterogêneas de uma indústria. A contaminação revelou em primeiro momento um lugar que demarcava um esforço de cura da pele. Passei a estudar a casca da árvore desconhecida e que por intuição integrou meu processo poético. Eiz que identifiquei a planta com ajuda de um amigo engenheiro florestal e descobri ser a Melaleuca ʽTea Treeʼ, cujas propriedades para medicina tradicional são utilizadas para tratamento de pele por ser antisséptico e ajudar nas cicatrizações dentre outras aplicações.” IK

As cascas da Melaleuca, finas e frágeis, semelhante à múltiplas folhas de papel sobrepostas, tornam-se a base onde intervenções pictóricas e matéria têxtil se dispõem. Igu pinta as cascas respeitando as zonas de profundidade inerentes à própria matéria, pondo em evidência suas múltiplas camadas. Através de um estudo pictórico, o levantamento topográfico das cascas da Melaleuca se confunde com a matéria têxtil, criando uma espécie de mimesis entre cascas e panos, postos em uma relação de igualdade.

Visualmente, Cascamadas se aproxima à uma estampa camuflagem. Manchas de tamanhos e formas irregulares se repetem. Mas essa estrutura não foi criada para se camuflar e passar despercebida, pelo contrário: ela é posta em evidencia numa vitrine, acentuando seu caráter performático enquanto ator inscrito em um contexto social. Na vitrine, lugar de exposição e venda de mercadorias, o artista “vende” sua prática nomade e o seu interesse pelas propriedades da matéria em que recolhe, quase da mesma maneira em que vende mercadorias pelas ruas de Brasilia enquanto pratica e reflexão poética.  

A escolha do artista por esses materiais reflete seu interesse em reutilização, transformação e um desejo intrínseco de se conectar com o espaço, enquanto transcende as limitações de um só lugar. A ancestralidade, vinculada ao nomadismo e a convivência com povos e saberes tradicionais inerente à sua prática, é acoplada à influências internacionais, como a proveniência da própria matéria prima utilizada para construir Cascamadas, original da Austrália. Essa dicotomia cria uma tensão entre interior e exterior, substância e superfície, e revela cicatrizes que expõem os vestígios de uma colônia construída a partir da diversidade de povos e saberes.   

Ambas cascas e panos, originalmente criados para proteger a matéria orgânica que revestem ⏤ naturalmente adaptados ao ambiente onde estão inseridos ⏤ são costurados uns aos outros com um objetivo em comum: revestir o espaço de difusão cultural que é a vitrine do deCurators.

Shesna Lyra




© Mateus Lucena